Filme : Dialogue avec mon jardinier – 2006 – Jean Becker
Hoje vi este filme também inserido na programação da Festa do Cinema francês para Évora

Comédia – 1h50
Com:
Daniel Auteuil, Jean-Pierre Darroussin, Fanny Cottençon, Elodie Navarre.
Produção:
Louis Becker (ICE3)
Estreou em
* 6 Junho 2007
Sinopse: ( retirado de 8ª Festa do Cinema Francês)
Um pintor parisiense quarentão bastante famoso regressa ao centro da França profunda para tomar posse da casa da sua juventude. O casarão tem em volta um terreno bastante grande, mas o pintor não tem nem a vontade nem o talento necessários para o tratar. É um antigo colega da primária, que perdera de vista e que volta assim a encontrar miraculosamente, que será o jardineiro. O pintor descobre nele um homem que, primeiro, o intriga e, depois, o maravilha, com a franqueza e a simplicidade do seu olhar sobre o mundo.
A minha opinião:
Com diálogos simples, as duas personagens envolvem-se e vão aprendendo os modos de vida e os trabalhos de um e do outro. O facto de terem crescido juntos oferece humor que agrada a todos (uso de crianças é obrigatório num filme deste tipo em que tudo já é sénior). O filme começa claramente baseado no artista e aos poucos vamos conhecendo o jardineiro até que o fim revolve em torno deste completamente.
O filme traz um ar natural e compreensível, com a noção de ciclo que se repete e faz parte das gentes. Como o pintor se surpreendeu com a naturalidade com que o jardineiro fala das suas rotinas: ida anual a Nice, com os bombeiros à festa anual que se faz sempre no mesmo local, a vida toda na aldeia, uma vida de trabalho duro na SNCF, a “luta” com a truta (adorei que ele tenha-a deitado de novo ao rio, apesar de a coitada da truta ter sido arrastada com um ferro cravado na boca durante uns tempos. Gostava de acreditar que era apenas uma truta mecanizada ou parecido. Os arenques que são tão apreciados no norte da Europa e que o jardineiro fazia questão de comer todos os dias, não tiveram tanta sorte).
Como que o que não se repete, é puro acaso e estes momentos ocasionais não tem o mesmo valor dos q se repetem.
Para serem verdadeiros e credíveis têm que estar neste ciclo.
Pelo meio, víamos o artista e a sua relação com a mulher que pretendia divorciar-se, a filha que ia casar com um homem mais velho, e as recordações do jardineiro (que tinham um modo peculiar de serem filmadas) e os dias que Madga (foto) que a re-encontra na vernissage em Paris e passa uns dias lá na casa.
No fim, vemos como se pode viver até ao último momento sem medo da morte, sem fugir dela, a enfrentá-la e faz-la voltar para traz. Como fez o jardineiro quando ainda estava na clínica. Como ele tratou do seu jardim mesmo deitado a ouvir o que agradava sem saber quem o fazia.
Foi engraçado notar que existem cada vez mais artistas que vivem “melhor” que muitos que nunca acreditaram no seu potencial criativo. Que têm mais poder de compra do que aqueles que trabalharam arduamente em ofícios mais “honrosos”.
Conclusão:
Filme a não perder e rever. Sem dúvida.
O que segue não pertence ao comentário sobre o filme mas sim um pouco dos sentimentos que foram despertados pelo filme.
A sequência inicial fez-me voltar uns anos para fui vendangeur em Beaujolais. Lembrei de Gisèle, de Pierre, da cozinheira Anike que nos fazia uns pratos maravilhosos vegetarianos (e às vezes piscatórios) e de todos os outros! Quando fazíamos uma pausa e finalmente contemplava os montes cobertos de vinhas e de bosques. Como dava gosto era de ver vinhas ao alto em vez das rasteiras que nos quebravam as costas.
Há coisas que me tem cada vez mais custado aceitar, ver, pensar…Ver assim alguém desaparecer já com idade avançada pois faz-me sempre querer voltar para casa do meu pai e passar com ele uns bons momentos. Tenho tantas saudades dele. De qualquer modo, estou-me a tentar esforçar ( porque sei que ainda posso fazer muito mais) e despachar o curso. Para fazer uma temporada lá em cima, antes de partir para Berlim.
Claro que devemos ter sempre em mente que a morte não vem como carrasco, nem como mensageira de um deus menor. Vem porque o nosso corpo já não resiste mais e tudo tem razões para que a morte nos bata à porta. (E quando falo em morte, é personificada, refiro-me a ela apenas como metáfora.) De novo, como as coisas continuam a andar, mesmo quando nós ficamos pelo caminho. Tenho ficado perplexo comigo próprio por não querer acreditar nisto. Tomara que houvesse um modo para fazer pausa. Para repensar e emendar. É aqui que tenho a confirmação de minha mortalidade. Da minha animosidade. Da falta de grandeza que estaria por cá se fôssemos realmente divinos ou por eles feitos. Mas deixem-me acreditar que é a cultura que nos vale, que não é só a sobrevivência da espécie que impele o meu ser.
Recomendo:
Os Maias
Porque tudo me faz lembrar o avô que morre e deixa Pedro desgostoso.
O meu amigo Rui recomenda:
Alberto Caeiro
E com toda a razão, pois são personagens parecidos do modo como vêem a vida e a vivem.


Concordo com o que disseste sobre o filme. É mesmo um daqueles filmes que se deve ver e fazer um esforço para compreender, se essa compreensão não nos tocar no fim.
Em relação ao que disse sobre Alberto Caeiro, existe uma diferença muito importante entre os dois casos – no caso de Fernando Pessoa foi Alberto Caeiro que ficou para “trás” e os outros hetéronimos viam-no com saudade, vendo o seu mundo como a verdadeira paz acessivel à alma humana.No caso do filme, o jardineiro,trabalhou nos caminhos de ferro,uma experiencia que provavelmente faria comover Alvaros de Campos mas foi sempre ele mesmo,ou seja, em vez de ser Ricardo Reis e Alvaro de Campos a olhar sobre Alberto Caeiro, foi um pouco este ultimo a olhar sobre os ditos cujos.
Depois de reflectir um pouco lembrei-me tambem do Candido e o Optimismo de Voltaire,talvez em termos de mensagem, talvez como tenha acabado..podemos passar por tudo e mais alguma coisa,ter mundos, mas no fim basta ser capaz de sentir, e ter a capacidade de assumindo a mortalidade, viver com esperança, mesmo que não eterna, mas com olhos na felicidade.
“Mas deixem-me acreditar que é a cultura que nos vale, que não é só a sobrevivência da espécie que impele o meu ser.
”
We can only hope..
Tudo de bom amigo
olá Rui!
Sem duvida que Voltaire e Louis Becker (e Henri Cueco, o autor do livro em que o filme se baseia) têm a mesma proposta: ser feliz, no mundo que não é o mais perfeito. E sim, temos que ter consciência em nos apercebemos que o mundo é belo, mesmo que ele não esteja cá para servir como tela à nossa vida.
Em relação ao Alberto Caeiro, continuo a achar que o paralelo que via entre os dois personagens era como o dujardin viveu os últimos momentos e encarou a morte singelamente, tal como A.C. via o sensacionalismo dos momentos e da natureza.